5 º dia de SMAM

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Sophia e eu nos encontramos ao ar livre pela primeira vez às 10 horas de uma manhã fria e chuvosa de agosto, em 2003. Os fatos que antecederam aquele momento não foram nada parecidos com os desejos acalentados durante toda a doce espera, já que passei por toda uma seqüência de intervenções impostas que resultaram numa cesárea malvinda. Minha bebê Sophia me foi mostrada por uns dois segundos, que foram suficientes para que ela calasse seu choro sentido e trocasse comigo um profundo olhar… seu cheiro ficou impregnado em minhas narinas dali para sempre. Nós só nos encontraríamos de novo doze horas depois, graças a uma intensa batalha para driblar os protocolos da instituição, que me negou qualquer contato com minha filha enquanto não me transferia para um leito vago!

Enfim, o momento esperado havia chegado. Ficaríamos dali para frente em alojamento conjunto, embora fôssemos quatro mulheres internadas naquela enfermaria e o espaço fosse muito pequeno para os berços. E, frustação sobre frustração, minha filha parecia absolutamente desinteressada em meu peito, chorava desconsolada. A auxiliar de enfermagem que a trouxe saiu da enfermaria com um olhar de reprovação, dizendo que voltaria depois para ver como estávamos nos entendendo. Algum tempo depois voltou e afirmou que eu não estava tentando o bastante! Ai, eu estava aberta ao meio, de corpo e alma, e ainda levava bronca… Estava também preocupada de atrapalhar o sono das companheiras de quarto, já era bem tarde. Acho que a auxiliar percebeu meu desconforto, e finalmente se compadeceu: “olha, descansa um pouco, vou levar o nenê para uma voltinha, daqui a pouco trago de volta”. Como ela demorava, resolvi ir atrás e… encontrei-a dando NAN para Sophia! Com muito jeito – eu tinha receio de me tratarem mal – disse a ela que isso não ia ajudar em nada o bebê, e levei-a de volta para o berço. Não é preciso dizer que a menina adormeceu profundamente, só acordando no início da manhã.

Aí, o “milagre” aconteceu. Entrou no quarto uma auxiliar com uma carinha de tia da gente, da família. Me perguntou como estava o aleitamento e eu chorei, contando tudo o que havia acontecido. Ela me confortou, e disse que isso não era nada, que minhas mamas eram lindas, estavam cheias de leite e tudo ia dar certo. Falava e olhava nos meus olhos como se me conhecesse de muito tempo. E aí disse uma coisa maravilhosa: “sua filha só precisa saber que VOCÊ é o conforto de todos os males dela, e eu vou te ajudar… põe um pezinho para fora do macacão, que eu vou bancar a bruxa feia”. Para minha surpresa, ela encostou uma gaze úmida na sola do pezinho, enquanto eu posicionava o bebê. Confesso que tive dó, mas o choro cessou imediatamente quando ela percebeu o peito próximo, abocanhou com tudo e certinho, mamando gostosa e longamente, de olhinhos virados. A moça me disse: “não se preocupe, nunca mais precisamos fazer uma maldade dessas com ela de novo, tadinha, agora ela sabe que pode contar com você, e que você é tudo de que ela precisa”.

Saímos do hospital no dia seguinte. Tive apenas uma leve escoriação num dos bicos, que rapidamente cicatrizou e descamou. Descobri muito rápido que sabia tudo de amamentar, bastava me deixar levar pelas necessidades que tínhamos de estar juntas, eu e minha filha. Amamentar com gosto e muito prazer foi o melhor dos remédios para a tristeza que tinha sentido pela cesárea indesejada, foi a melhor das curas. Ali percebi minha autonomia, minha capacidade de gerar vida, e retomei o protagonismo que havia perdido no momento do parto.

Quando levei minha filha ao pediatra, 40 dias depois (sim, demorei, não queria nenhuma interferência e estava completamente auto-confiante!), fiquei super-orgulhosa ao ver que ela havia ganho 2 quilos! Não pude manter no exclusivo por causa da volta ao trabalho, mas escolhi não introduzir nenhum outro leite, apenas outros alimentos. Levantava às 4 da manhã e ordenhava meu leite para congelar. Na creche, ensinei as cuidadoras a descongelar e oferecer, e conseguimos manter essa rotina até que ela completasse 10 meses.

Foi uma doce interpendência que se desenvolveu ao longo de 1 ano e meio, até que um dia a danadinha me disse que não queria mais meu peito. Fiquei bem órfã, mas também percebi que minha mocinha estava agora exercendo sua autonomia e suas escolhas.

Ela vai completar 5 anos durante a SMAN, e conheço poucas crianças tão expressivas em seus próprios sentimentos e tão confiante em si mesma. Outro dia, tomando banho juntas, ela acariciou minha cicatriz e disse: “tadinha da mamãe, não vou deixar nenhum médico cortar sua barriga mais, tá?”

Débora mãe da Sophia

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