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6º dia de SMAM

agosto 6, 2008


Quando eu estava grávida, nunca pensei em preparação para amamentação ou em dificuldades. Eu nem pensei que existia a possibilidade de ter dificuldades porque para mim amamentar sempre foi um desejo e uma coisa natural. Nunca cogitei não amamentar. Aliás, a hipótese de não amamentar nunca passou perto de mim. Nem procurar informações sobre o assunto eu procurei. Na minha cabeça era: coloca o bebê no peito e pronto! Simples assim.

Quando o Gabriel nasceu, eu sofri uma cirurgia de emergência e fiquei uns 2 dias na UTI. Por conta disso de uma complicação no meu parto, ele não pode mamar na primeira hora. Bem, também era desejo meu que ele mamasse na sala de parto, mesmo só descobrindo sua importância real muito tempo depois. Enquanto fiquei na UTI, meu filho foi alimentando com complemento. Não sei por qual razão, apesar de eu estar me recuperando e consciente na UTI, ninguém nunca cogitou que eu tirasse leite pra ele e eu era meio “mãezinha” na época, nem pensei nisso. Ninguém pode imaginar a culpa que sinto por conta disso.

Enfim, continuando…logo que fui para o quarto ele grudou de cara no meu peito e ficou horas. Deve ter ficado 1h em cada um. Tudo lindo, tudo perfeito. Quando fui pra casa, no 8º dia meu leite desceu. Aí sim que eu, na minha inexperiência, percebi que o tempo todo ele estava “só” no colostro, apesar de não ter chorado em momento nenhum. Por isso, deduzo que fome ele não passou. O leite desceu com toda a força. Meus peitos pareciam que iam explodir de tão enormes e duros. Fiquei com febre 2 dias. Eu parecia um esguicho e ele não dava conta de mamar, nunca esvaziava nenhum deles, felizmente. O “inconveniente”, se é que se pode aplicar esta palavra feia, era que eu vivia com as roupas cheias de fraldas dentro. Eu ia tomar banho e não conseguir nem me secar de tanto leite que pingava. Uma benção! De noite, as fraldas não davam conta e várias vezes eu tive que trocar de roupa e trocar toda a cama, pois levantava ensopada de leite.

Nunca coloquei relógio nas mamadas, pois já tinha aprendido, pelo menos, sobre livre demanda. No começo ele ficava geralmente meia hora (chutando) em cada peito. Depois de 1h ele começava tudo de novo. Eu não fazia praticamente nada além de amamentar. Passava as madrugadas no sofá vendo séries repetidas com ele no peito ou no carrinho ao lado. Dormi várias vezes sentada com ele no peito.

Na segunda semana meus peitos estavam todos esfolados e cortados pois ele estava com a pega errada (o lábio inferior não estava pra fora – peixinho). Gabriel mamava leite, sangue e lágrimas. Cada hora que fazia “nhé” pra mamar, eu começava a chorar. Ainda assim, em nenhum momento pensei em desistir. Foi quando a Ana Cris, minha doula, foi me ver em casa e ajudou com a pega além de recomendar o uso de conchas pra ajudar a cicatrizar. Comprei no mesmo dia! Outra benção! Com as conchas, a roupa não ficava encostando e ferindo mais os mamilos. Não passei pomada nenhuma. Só com as conchas e a correção da pega, em uma semana mais eu comecei a conhecer o paraíso do leite.

Eu achava que o pior tinha passado. Fisicamente tinha mesmo. Psicologicamente eu ainda tinha um longo chão pela frente, já que ele mamou até 2 anos completos.

Antes de voltar a trabalhar, eu não pude estocar leite, mesmo tendo muito, pois eu não tinha freezer em casa na época. Durante minha licença maternidade eu doei leite para a Maternidade Interlagos que ia retirar o leite em casa. Como eu não tinha freezer, eu guardava no congelador e eles iam buscar a cada 2 dias. Eu ligava e eles iam bucar. Super prático! Levavam o leite e traziam novos frascos esterelizados, prontinhos.

Quando voltei a trabalhar não tinha estoque de leite. Comprei uma bomba manual e ordenhava no trabalho. O Gabriel estava com 5 meses e meio na época. Eu fazia 3 ordenhas por dia e cada uma rendia entre 200-300ml. Meus peitos continuam explodindo mas eu não tinha tempo de ordenhar mais vezes. Chorei de dor trabalhando algumas vezes. Não conseguia levantar os braços. Fiquei com medo do leite ordenhado ser insuficiente pra ele e, num grito de socorro, entrei com contato com as amigas do peito no Rio de Janeiro, pedindo soluções pois tinha pavor só de pensar em complemento. A salvação veio da resposta simples e óbvia: se faltar leite, já pode coplementar com suco mas não dê fórmula. Como eu não tinha pensado nisso? Claro! Que simples! Só faltavam 2 semanas pra ele completar 6 meses. Assim foi e logo ele começou a ingerir frutas e papinhas progressivamente.

Ordenhei até ele completar 1 ano e, admito, cansei. Além do que no trabalho já não tinha mais tempo para as 3 ordenhas e a produção já tinha caído bastante também. Na verdade, tinha se regularizado de acordo com a demanda.Como ele comia bem, achei que seria desnecessário ordenhar. O Gabriel continuava mamando muito de madrugada, mas nas madrugadas que ele não acordava, ou acordava menos, eu levantava pra ordenhar e aproveitar o pico da prolactina para estimular a produção. Não era tarefa fácil mas, para mim, a única aceitável. Nunca faltou leite, nem quando eu parei de ordenhar, pois ele continuava mamando de manhã e à noite.

O Gabriel era um bebê grande e com menos de um ano as pessoas já começaram a me olhar com cara de espanto por ele “ainda” mamar. Aliás, o termo “ainda mama?” é bem conhecido por qualquer mamífera assumida. Nessa fase procurei um grupo de apoio e encontrei o ACA – Amamentando com Amor (lista de discussão). Esse foi um marco fundamental para o meu sucesso, além das palavras de apoio e incentivo da Analy, que sempre me inspirou e a quem eu carinhosamente apelidei de “fada madrinha da amamentação”. Ainda tenho muito a dizer sobre o preconceito e como consegui levar essa batalha até onde eu quis (2 anos completos) mas, para encurtar a história que já está enorme, vou atribuir o sucesso da nossa jornada de amamentação ao apoio dessas pessoas. Obrigada Analy, obrigada Mirka, obrigada ACA e obrigada Amigas do Peito. Sem vocês provavelmente eu não teria conseguido.

Eu volto para falar do preconceito na nossa fase de 1 a 2 anos.

Parabéns Matrice pelo trabalho!

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Faltam 11 dias pra SMAM!

julho 21, 2008

Primeiro, parabéns pela iniciativa de vocês!

Em todos os tipos de trabalho de promoção da saúde, acho que o que mexe mais profundamente com as mulheres é o da troca de experiências entre iguais, ou pelo menos parecidos, se é que me entende. Eu juro que resisti bastante para mandar esse depoimento. A gente sempre tem uma porção de coisas pra fazer… Mas qdo vcs mandaram esse email só pra mim, aí eu não resisti, e embora eu já tenha apoiado muita gente, e saiba direitinho ou pelo menos imagine o valor desse apoio, só depois dessa experiência pela qual eu passei com o meu filho caçula, o Henrique (e lá se vão 16 anos) é que eu pude ver a grandeza dele, e mais, a partir daí me empoderar para apoiar verdadeiramente outras mulheres nessa caminhada. Gostaria de que tivessem como premissa que todo o meu relato foi a minha experiência e de minha família, não estando eu querendo com isso dizer o que é ou não certo fazer, mas sim contando a nossa experiência para que possa ajudar a outras mulheres a atravessar esta fase da melhor maneira.

O Luís Felipe foi nosso primeiro filho, super desejado, passei uma gravidez maravilhosa, plena, feliz. Participei de grupos de gestantes e desde o primeiro dia do pré-natal falei para a obstetra que queria ter parto normal, e ela concordou dizendo que tudo bem. Ao final da gestação, eu estava na 39ª sem e nada de entrar em trabalho de parto, todos sabem como é a ansiedade desse período, aí foram pedidos os exames: ultrasonografia e doppler. Na 40ª semana, já bastante ansiosos, eu também não entrava em trabalho de parto e aí começaram as conjecturas médicas: a placenta pode estar muito madura, não estar nutrindo tão bem o bebê; pode haver uma circular de cordão, de repente é por isso que vc não entra em trabalho de parto, enfim, nesse país de cesarianas, nós três (pai, mãe e bebê) precisávamos de mais para enfrentarmos toda essa pressão. O final dessa estória é fácil de saber: eu fui submetida a uma cesariana e a idade gestacional do Luís Felipe após o exame feito pelo pediatra foi de 38 semanas. É claro que não estava na hora…

Pra completar, ele teve icterícia neonatal (muito provavelmente por conta de algum tipo de prematuridade, já que o nosso sangue não é incompatível), tivemos de ser reinternados em outro hospital para que ele recebesse tratamento e fototerapia. Nem preciso dizer que daí para frente as coisas foram ficando cada vez mais difíceis. Eu só fazia chorar e tinha um sentimento de frustração e perda enormes. Quando tentava colocar meu filho no peito ele chorava, chorava, e com meu estado ansioso cada vez tinha menos leite. Em sua primeira consulta com quase um mês de vida ele tinha perdido quase 500 gramas.

Depois analisando, em outros momentos também, mas pude perceber que principalmente neste momento eu precisei de apoio de alguém que pudesse clarear as coisas, mas não tive. Meu marido se sentia tão fragilizado como eu, embora solidário. Nem profissionais de saúde, nem amigos, nem parentes, ninguém que pudesse nos apoiar naquele momento, não da forma como precisávamos. E olha que nós recebemos muitas visitas…

Mas como depois de uma noite vem outro dia, meu filho foi crescendo lindo e muito amado, embora eu tivesse isso mal resolvido em mim… Foi quando, 1 ano e 5 meses depois, descobri que estava grávida do Henrique, que não foi planejado, mas também muito desejado tão logo soubemos. Podem imaginar todos os filmes que passaram na minha cabeça naquele início de gravidez. Nessa época eu já estava trabalhando com mulheres e grupo de gestantes e trabalhava com profissionais de saúde muito experientes com gestantes e partos. Minha primeira dificuldade foi escolher quem acompanharia meu parto, até que por indicações cheguei a um obstetra que eu sabia acompanhar a maioria dos partos vaginais. Acabei que só comecei a fazer o acompanhamento pré-natal com 16 semanas tamanha era a minha dificuldade em escolher com medo de me frustrar mais uma vez.

Participei de um maravilhoso grupo de gestantes, com coordenadoras super legais e fiz trabalho corporal durante toda a gravidez. Com 39 semanas, durante o banho, perdi o tampão mucoso, aquela  “gosminha” que fica no colo do útero durante a gravidez. A combinação que fiz com o obstetra é de que ele só interviria (cesariana) caso fosse extremamente necessário, observando-se também que eu tinha uma cesariana anterior e que esse útero poderia ter uma ruptura durante o trabalho de parto. A única coisa que ele me pediu é que gostaria de acompanhar meu TP comigo internada por segurança. Eu topei as condições. Após perder o tampão comecei a sentir contrações fracas, mas fui à consulta. Não tinha dilatação, as contrações passaram e ele explicou que o tampão poderia inclusive se refazer, que não seria para aquele dia, mas pra eu ficar atenta, e tentar fazer as coisas que gostava, relaxar. Naquele dia fui passear com meu marido na praia, tomar água de côco. Dois dias depois as contrações começaram brandas e à tarde foram ficando mais  fortes. A noitinha quando fui examinada, o obstetra me disse que eu tinha 4/5 cm de dilatação e que eu deveria me internar. Eu, que na outra gravidez não tinha sentido absolutamente nada, nem perdido o tampão, estava muito feliz com todas aquelas sensações que estavam acontecendo com o meu corpo me dando a certeza de que o nosso filho estava chegando da melhor forma. Internei às 23h, e cada vez as contrações e conseqüentemente a dilatação aumentava.  Meu marido e as coordenadoras do grupo de gestante estiveram o tempo todo comigo, fazendo massagens, me davam banho, me acariciavam, caminhávamos madrugada afora. Ás 6h fui levada para a sala de parto, aí já estava com 9 cm de dilatação, sentindo algumas contrações incômodas, mas muito feliz. Quando comecei a me posicionar na sala de parto, o obstetra conversou comigo se não gostaria de ficar de cócoras, pois assim participaria mais ativamente do nascimento de meu filho. Realmente não era essa a minha pretensão, mas rapidamente pensei na idéia e resolvi topar o desfio (mais um).

Às 6h15 meu filho nasceu através de parto de cócoras, eu o peguei e coloquei ao seio para mamar na mesma hora. E ele mamou muito. Realmente não posso descrever a emoção que senti e o que aquilo representou para mim e para a nova família que se formava naquele momento. Durante e após o nascimento, embora num hospital, a luz era baixa e a atitude era de imenso respeito e gentileza com que estava acontecendo e com a nova vida que chegava com aquela manhã. O céu que podia ver entre as persianas era vermelho de crepúsculo, foi muito emocionante. O apoio continuava nos primeiros dias; fui com o Henrique ao grupo toda feliz e orgulhosa contar a experiência do parto para as outras grávidas. E embora tivesse uma cirurgia de redução mamária anterior (outra questão muito controversa) eu persisti amamentando exclusivamente, seguindo todas as orientações e sendo muito apoiada de todas as formas.

Na consulta dos 30 dias (e eu tinha medo dela, pois o meu mais velho nessa pesagem havia perdido quase 500 gramas) eu tive a maravilhosa, e inédita surpresa de que o meu filho, apenas com o meu leite, e nós dois, nós três, nós quatro, com muito APOIO engordou 700 gramas neste primeiro mês!!!!!!! Para mim isso foi o nirvana e a coroação de tudo o que eu almejei. É claro que, indiscutivelmente, eu acreditei em mim, mas o apoio foi fundamental neste processo. Principalmente no meu caso, por ser enfermeira, as informações, as técnicas, ficam muito no terreno racional, e precisamos que tudo isso passe  para o plano emocional para que seja vivenciado plenamente e transformado numa experiência positiva. E isso se consegue com apoio, com troca de experiências, com afeto, com carinho, com colo, com peitos! 

Espero que a minha experiência de apoio possa abrilhantar o calendário do grupo Matrice. Parabéns, meninas!!

Fernanda Sá, enfermeira, fotógrafa e mãe de Luis Felipe e Henrique

Faltam 12 dias…

julho 21, 2008

 

 Banco de imagens da Matrice

 

Durante a gestação contrai hepatite A, e o meu bebê apresentava uma imagem no seu abdome, na ultrassonagrafia, fui acompanhada pelo obstetra e por uma cirurgiã-pediátrica, já sabíamos que ele iria ser submetido a uma  cirurgia após o nascimento. Sendo assim, logo após o parto, o meu bebê foi para UTI neonatal, isso aconteceu às 23 horas e só no dia seguinte pude ter contato com ele. Ao primeiro encontro ele foi amamentado, tentativa de sucção, mas logo ele ficou de dieta zero para cirurgia, e depois da cirurgia foi alimentado por nutrição parenteral por 5 dias.

Durante esse período, minhas mamas estavam cheias e todos os dias eu passava horas no lactário do hospital, realizando ordenhas manuais, massagens e esvaziamento das mamas (que luta! e quantas lágrimas derramadas), mas pedia às lactaristas que não desistissem e continuassem todo o processo; até que um dia a cirurgiã me disse “Hoje você vai coletar o leite pois vamos alimentá-lo com o seu leite e se ele responder bem vamos liberar para ele sugar ao seio”, ele era o maior bebê da UTI naquele período (3.580 kg), as outras mães me diziam que queriam ver os filhos delas gordinhos como o meu, e tudo deu certo naquela tarde, ele aceitou o leite e logo foi colocado ao seio.

Que emoção! Já tinha uma experiência de amamentar minha primeira filha e sabia o quanto era importante para mim e para ele aquela atitude, e depois de passado todo esse sufoco ele mamou por um ano.

Sou enfermeira e trabalho em maternidade há 18 anos, sou defensora do aleitamento materno e atualmente estou aprendendo muito participando como presidente de uma comissão de incentivo ao aleitamento materno no hospital que trabalho.

Indira Araújo

 

Faltam 17 dias… mais uma semana se passou!!

julho 15, 2008

Amamentar era o sonho da minha vida! Tanto quanto ter o meu filho de parto natural. O encanto se quebrou quando meu filho teve quer ser internado na UTI por desconforto respiratório. Foram dias de tortura e a única coisa que eu pensava era: não vou conseguir amamentá-lo. Mesmo na UTI recebendo o leite que eu ordenhava com muito amor e carinho, os dias iam se passando, meu gatinho melhorando rapidamente e minha paúra de levá-lo para casa e descobrir que ele não ia querer mamar mais, pois somente no momento que nasceu, sentiu o calor do meu seio na ânsia de alimentá-lo, e depois ele foi levado de mim. Uma frase ecoava na minha cabeça como um mantra: “Se até mãe adotiva amamenta, por que você não conseguiria? Amamentar não é só saciar a fome. É uma comunhão de amor entre você e ele”, dizia o pediatra do Enzo para mim, sempre aflita.

Cada dia que se passou em casa foi uma vitória, uma conquista! No começo da amamentação ele teve problemas de pega, eu problemas com monilíase, mas a dor sentida face ao seu sorriso de prazer acalentado nos meus braços não tinha intensidade alguma.

Minha mãe sempre foi uma graça, todos os dias ao meu lado repetindo a mesma frase, com aquele amor incondicional de mãe que todos conhecemos: tudo isso vai passar filha. Amamentar é muito gostoso e você vai ver como é. Vai melhorar… vai melhorar… e o pranto dela rolava junto com o meu.

Os dias passaram e comecei a sentir o maior prazer da minha vida: amamentar o meu filho com paz e tranquilidade. Sem medos, nem dores. Hoje o Enzo tem quase 2 anos, e meu maior presente é ainda poder oferecer para ele o leitinho que eu preparo ao longo do dia enquanto trabalho, com o maior amor do mundo: o leite materno.

Gisele, mãe do Enzo